quinta-feira, 30 de abril de 2015

Capítulo 350

Primeiro encontro e aquela coisa: sensação de novo por todos os lados. Lá estava eu, sentada, frente a frente, pronta para me apresentar – um pouco incomodada com alguém me dando tanta atenção. Poderia dizer as coisas mais incríveis, contar histórias engraçadas, inventar um personagem para mim mesma. Porém, dessa vez, para dar certo, tinha uma diferença. Era fundamental deixar de lado a máscara social que nos faz dizer maravilhas de nós mesmos, de como vemos o mundo, de planos e sonhos que talvez só existirão em nossas cabeças e partir logo para o cerne da questão. 

Eu poderia estar viajando, comprando roupas, gastando nos barzinhos de SP ou com shows ou com qualquer coisa, mas optei pela terapia. E, de novo, eu poderia estar lá reclamando de chefe, de família, amigos, namorados, vizinhos, mas escolhi apontar o dedo para mim mesma. É mais honesto e coerente com o meu discurso de “vamos ser pessoas melhores”. Então vamos e o que der para fazer eu topo. De cara já dá um alívio ao ver que o consultório é bem aconchegante e ela fala. ELA FALA. Cada com um a sua linha, mas essa de falar e alguém só te encarar não é pra mim não.

Dá trabalho, você se descama diante de uma pessoa que nunca te viu, que não sabe nada e vai te entender justamente pelas suas palavras. Aí são três, quatro, cinco histórias para contextualizar algo. De repente você conta um fato de dois anos atrás, aparentemente banal, mas que tem reflexo atualmente. Tiveram momentos que deu vontade de falar “abre aqui meu Facebook. Essa sou eu, essa foto é do dia tal, etc, etc... ou então, “dá um google aí”, “escrevi sobre no meu blog”. Essa é a parte engraçada. A parte incômoda é enquanto você fala sentir que está sendo analisada. Você percebe o olhar que desvia do seu e vai direto para suas mãos quando você começa a mexer no colar. E eu me perguntava “por que eu estou segurando, dando um nó nesse colar?” “ela está percebendo e deve estar achando o que? É fuga? O colar é minha muleta? O que eu estou contando mesmo? Há quanto tempo eu estou mexendo nesse colar?!!” Decidi antes mesmo de levantar para sair da primeira sessão que nunca mais voltaria com colar ou objetos que desviassem minha atenção. Check. Achei que eu fosse me desabar de chorar. Nada. Minhas lágrimas sabem ser comportadas quando convém. Ok, acho que o fato dela ter avisado logo que os lencinhos estavam ali se necessário inibiram um pouco. Quem chora com lencinho é muito fina e contida, praticamente uma mocinha de época. E eu? Ah eu.....
Ainda com tanta verdade, ainda com todas as cartas na mesa em 90 minutos foi um primeiro encontro com saldo extremamente positivo. Não por ouvir o que queria ou ouvir algo sobrenatural, mas uma pessoa neutra, especializada e que pode te fazer enxergar mais ainda sobre você é fundamental. É preciso muita coragem – e disposição para cutucar feridas -  para fazer terapia porque é cômodo culpar a vida, o outro, as circunstâncias, os astros e não perceber que a mudança parte da gente. É fácil se vangloriar de certas características que temos e querer que o mundo aceite e que a vida sorria para você, né. “Tenho gênio difícil mesmo”, “não pisa no meu calo que quebro a sua perna”, “sou assim e nunca vou mudar”.  


Na segunda vez, o resumo é mais ou menos esse:
- Isso me incomoda
- Você não deveria se incomodar, não diz respeito a você, bla bla bla...
Reagi super bem.




“Não vou mais falar nada. Eu poderia estar fazendo outra coisa com meu dinheiro”.





Aí você pensa, pensa, começa a falar de novo e assume que sim, ela está certa. Como já sabia há cinco minutos atrás, logo que ela disse. Tem coisas difíceis de digerir, mas você digere com o tempo e agradece porque não se incomodar com o que não é seu é aprender a ser mais leve.
Até a próxima sessão :) 


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